Depoimento de Marcio Fernandes da Silva

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Antes de tudo, gostaria de parabenizar o pessoal que teve a iniciativa de criar esta página na Internet! É muito bem-vindo este espaço de diálogo e reflexão sobre o Opus. Dentro deste espírito de diálogo, vou compartilhar a minha experiência com o Opus.

Clube Pinhal

Conheci o Opus quando eu tinha cerca de 10 anos de idade. Fui convidado, por um garoto meu vizinho, a participar das atividades do Clube Pinhal. Este clube funcionava - e talvez ainda funcione - no subsolo do Centro Cultural Pinheiros, que fica na Rua Joaquim Antunes, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Aquele ambiente envolvendo atividades manuais, brincadeiras, competições, saídas para o campo... Eu achava tudo aquilo muito legal, muito divertido.

Fazia também parte das atividades do clubinho uma aula de catecismo, dada por um sacerdote do Opus. Esta aula consistia em decorar as respostas do chamado catecismo "verdinho". Lembro-me que o sacerdote fazia competições de catecismo, tendo como prêmios algumas balas, ou doces.

Meus pais não sabiam de nada sobre o Opus, e deixaram que eu freqüentasse o clubinho.

Centro Cultural Pinheiros

Alguns anos depois, com cerca de 14 anos de idade, passei a freqüentar o Centro.

E o que se fazia no Centro? Basicamente, estudar e receber "formação".

Em relação a estudos, lembro-me das chamadas "guerras de estudos". Era um jogo semelhante ao jogo de guerra "War", jogado por equipes. A equipe que passasse mais tempo estudando na sala de estudos do Centro tinha mais exércitos para colocar no jogo. Tinha gente que levava bastante a sério esse jogo. Eu gostava do jogo, porque eu gostava de estudar.

Pouco a pouco, ia aumentando a dose da "formação" que eu recebia. A "formação" consistia em participar das seguintes atividades:

  1. Conversa semanal com o sacerdote (já a fazia no clubinho).
  2. Meditação semanal pregada por um sacerdote. Estas meditações ocorriam no oratório do Centro. O sacerdote entrava pelo fundo do oratório. Quando o sacerdote entrava, todos levantavam-se. Dirigia-se o sacerdote ao altar. Chegando lá, ajoelhava-se e rezava a oração inicial das meditações: "Meu Senhor e meu Deus, creio firmemente que estás aqui, que me vês, que me ouves..." Depois desta oração, sentava-se numa cadeira, tendo à sua frente uma mesinha, onde colocava os papéis que trazia, com o conteúdo da meditação. E aí passava a pregar.
  3. Círculo. Eram palestras que um membro do Opus dava para um grupo reduzido de rapazes.
  4. Recolhimento. O recolhimento era um período no qual o sacerdote pregava duas meditações.
  5. Retiro. Tratava-se de um final de semana que passávamos numa casa de campo, fazendo uma programação intensa de "formação", que incluía diversas meditações e palestras. Nos retiros, o silêncio era obrigatório.
  6. Convívio. Também era um tempo que passávamos em uma casa de campo, porém não havia a obrigatoriedade de fazer silêncio.

É claro que não foi do dia para a noite que passei a participar destas atividades. O pessoal do Centro foi me propondo participar de cada uma delas de maneira gradual.

Tinha também as chamadas "práticas de piedade", ou "normas". Pouco a pouco, o sacerdote foi pedindo para eu fazer as seguintes "normas": leitura do evangelho, leitura espiritual, oração mental, missa durante a semana etc.

Outras coisas que me pediram para fazer:

  1. Visitas a hospitais. Visitei, a convite de um membro do Opus, uma enfermaria de ortopedia infantil. Levamos alguns gibis para os meninos que estavam internados.
  2. Visitas aos pobres. Visitei, também na companhia de um membro do Opus, um barraco de uma favela de São Paulo. Levamos algumas roupas velhas para os favelados.

As visitas a hospitais e aos pobres não tinham nenhuma finalidade de assistência aos necessitados. A finalidade era suscitar no rapaz um sentimento de querer ajudar, de ser generoso. Esse sentimento seria utilizado pelo Opus, posteriormente, para levar o rapaz a tornar-se membro da instituição.

Pedido de Admissão

Numa certa altura, eu estava indo quase todos os dias da semana no Centro.

Eu tinha apenas 15 anos. Um dos membros do Opus começou a insistir para que eu também me tornasse um membro da instituição. Eu não lhe dava a mínima. Não levava-o a sério nisso. Achava que ele estava enganado, que eu não tinha "vocação" nenhuma.

Aí, fiz um retiro. Nesse retiro, uma das meditações teve como tema a "vocação". O sacerdote que pregava o retiro foi forte na sugestão à "vocação" para o Opus: insistiu na necessidade de sermos "generosos", e blá-blá-blá...

Aquela forte sugestão do sacerdote fez com que eu ficasse com o tema da "vocação" nos meus pensamentos, nos dias posteriores ao retiro. Eu estava, então, pensando se eu tinha mesmo a tal da "vocação" para o Opus ou não.

A primeira pessoa para quem perguntei mais abertamente "você acha que eu tenho vocação para a Obra?" foi para o sacerdote do Centro. E ele disse que "sim", sem hesitar.

O sacerdote do Centro Cultural Pinheiros, naquele tempo, era o Pe. R.S. Utilizo aqui apenas suas iniciais, porque eu soube que R.S., graças a Deus, já conseguiu enxergar os absurdos que praticava, e deixou o Opus.

Agora, voltando ao relato a respeito da "vocação"... Depois da pergunta ao sacerdote do Centro, o meu mundo desabou de vez! Aquele sacerdote, com quem eu conversava já há alguns anos, exercia grande influência sobre mim. E eu não esperava pela resposta afirmativa dele. Eu não contava com aquilo. O meu impulso inicial foi de assombro, de grande surpresa. Minha idéia inicial de vida, o meu "default", era casar-me, ter filhos, sei lá, ser um cara mais comum, um cristão mais comum.

A dúvida a respeito da "vocação" ocupava agora mais espaço ainda, nos meus pensamentos. Impossível não pensar neste assunto naqueles dias.

Eu já vinha conversando com certa freqüência com o diretor do Centro, que naquele tempo era o João Malheiros. Coloco o seu nome por extenso porque, de acordo com a última informação que tive, João Malheiros ainda continua no Opus. De forma que, no caso de ele vir a ler estes escritos, ficará ciente do absurdo que fez comigo, quando eu era apenas um moleque de 15 anos.

Pois bem, o João Malheiros também confirmou que achava que eu tinha "vocação".

Aquilo tudo me deu um mal-estar muito grande. Uma sensação de beco-sem-saída, de sinuca. Afinal, era o pessoal que eu mais prezava... Era o meu principal círculo de amizades. Era o meu vínculo emocional e afetivo mais forte, talvez igual ou maior do que o que eu tinha em relação aos meus pais e irmãos, naquela fase da minha vida.

Bem, essa situação de sinuca durou alguns dias, talvez uns 10 dias, até que "apitei". ("Apitar", para quem não sabe, é uma palavra usada no jargão do Opus, que significa pedir admissão como membro do Opus).

Cansado com aquela situação indefinida e muito desconfortável, acabei por falar para o sacerdote que eu, então, havia decidido pedir a admissão. O sacerdote falou para eu comunicar a minha decisão ao João Malheiros.

Pois bem, entrei na sala do João e disse que eu queria pedir a admissão para o Opus.

Ele me disse que eu precisaria escrever uma carta para "o Padre", ou seja, para o prelado do Opus, pedindo admissão como numerário do Opus. (Numerário é o tipo de membro do Opus que é celibatário e que mora nas residências da instituição). Fui numa das salas do Centro, e escrevi a tal carta.

O João Malheiros, ao ler a carta, reclamou do estilo muito coloquial e "de moleque", que eu havia usado na sua redação. Oras bolas! Que outro estilo esperar de um garoto de 15 anos?

A partir daquele instante, eu tinha passado a "ser de casa". ("Ser de casa" é, no jargão do Opus, o termo que se usa para designar as pessoas que são membros da instituição).

Alguns numerários do Centro vieram me cumprimentar: "Pax!". Eu devia então responder: "In Aeternum!". (Este é o cumprimento secreto dos membros. É em latim. Significa "paz, para sempre!"). Um dos numerários me disse que eu havia passado a ser o "farol vermelho" do Centro, ou seja, a "vocação" mais recente daquele Centro.

Me veio uma enorme sensação de paz. "Fui generoso!" - foi o que pensei. No fundo, o que explica essa sensação de paz é o ponto final, ou seja, a solução que eu tinha encontrado para pôr fim àquele conflito a respeito da "vocação".

Conflito este que foi criado pelos membros do Opus. De fato, a insistência de um dos numerários para que eu também me tornasse um membro, a pregação do sacerdote no retiro, o posicionamento firme do Pe. R.S. quanto à "certeza" da minha "vocação", o mesmo posicionamento do João Malheiros... Tudo isto fez parte de um plano cuidadosamente executado, em conjunto, pelos membros do Opus.

Lógico que, no momento em que eu pedi admissão, eu tinha fé no Deus do catolicismo - Jesus Cristo (fé que hoje, apesar da experiência que tive com o Opus, ainda conservo, porém passando muito longe de qualquer fundamentalismo ou fanatismo). Naquele momento, eu acreditava que Deus, falando através do sacerdote e do diretor do Centro, de fato queria que eu fosse um membro do Opus. Graças a Deus, mais tarde, eu deixei de acreditar nisso.

Eu não disse nada aos meus pais, sobre a minha "vocação". No Opus, falavam que a "vocação" era uma coisa muito pessoal. Falavam também que, muitas vezes, os pais não entendiam a "vocação" dos filhos, e, por isso, era melhor não comentar nada com a família.

Passei, então, a ser um "adjunto". ("Adjunto" é o numerário que ainda não mora no Centro).

Adjunto

Nas semanas que se seguiram ao pedido de admissão, eu ia fazendo sucessivas conversas com o João Malheiros.

Nessas conversas, o João ia, pouco a pouco, explicando-me como viver o chamado "espírito da Obra". Falou-me sobre as preces (oração privada dos membros do Opus), e me deu uma cópia plastificada do texto, em latim. Ganhei também do diretor uma agenda da marca Finocam - uma marca espanhola. Vários outros numerários usavam agendas da marca Finocam, ou então Luxindex. O diretor falou-me sobre o cilício e as disciplinas. Ganhei o meu "kit" de auto-flagelação. Falou-me sobre a conta de gastos (um relatório de todos os gastos pessoais, mesmo os mais mínimos, que deveria ser apresentado ao diretor). Falou-me sobre a correção fraterna (a forma de um membro apontar desvios do chamado "espírito da Obra", que eventualmente tivesse observado no comportamento de outro membro), a água benta na cama e as três ave-marias com os braços em cruz antes de dormir, dizer "sérviam" ("eu servirei") e beijar o chão ao acordar, a conversa fraterna (conversa semanal obrigatória com o diretor), as Crônicas (revista interna do Opus)... Eu ficava apreensivo, e pensava comigo: "E agora, que mais será que tem de surpresa?" O João me deu uma listinha com as normas e um quadriculado, para preencher dia a dia, no exame geral, se cumpri ou não cumpri cada uma das normas.

Minha rotina de adjunto era extenuante: acordar às 5:00 h., tomar banho frio, ir para o Centro. Assistir a missa. Do Centro, ir para o colégio. Almoçar e voltar para o Centro. Rezar as preces, fazer a leitura do evangelho e de um livro espiritual, no oratório. Colocar o cilício e ficar com ele durante duas horas. Estudar na sala de estudos, ou então fazer algum encargo. Às quatro e meia, oração mental. Às cinco da tarde, tertúlia com cafezinho. Sentávamos nos sofás ou nas cadeiras, e conversávamos durante aproximadamente meia hora. Às 17:30 h., mais estudo, ou fazer a conversa fraterna, ou fazer algum encargo. Mais ou menos às 19:00 h., pegar o ônibus e ir para casa. No ônibus, rezar o terço. Chegar em casa, jantar e desabar na cama, esgotado de cansaço. Isso tudo incluía, é claro, os sábados e os domingos. Aos domingos a gente fazia uma excursão, ou então tinha algum jogo de futebol.

Fui "vítima de uma perseguição" no colégio em que eu estudava. Numa certa altura, um dos professores falou mal do Opus. Defendi o Opus. Comentei o ocorrido com o sacerdote e com o João Malheiros, e eles aplaudiram a minha coragem, com uma frase do tipo: "puxa vida, Deus não coloca assim uma situação tão dura para qualquer um... Ser perseguido é sinal de uma predileção de Deus... Você é valente, corajoso!"

O fato é que a crítica do professor reforçou a minha crença no Opus. Isso é freqüente em seitas: devido aos argumentos inculcados no processo de "formação", uma crítica externa acaba por estreitar os vínculos do membro com a sua seita.

É obrigação de todos os numerários fazer proselitismo. No tempo de colégio, convidei alguns de meus colegas para ir ao Centro. Uma parte de meus colegas, felizmente, tinha pais mais bem informados que os meus, sobre o Opus. Estes colegas pararam de me acompanhar no Centro.

Mas infelizmente tive um amigo que se envolveu mais tempo com o Opus. Ele não chegou a se tornar um membro, mas, mesmo assim, ele me comentou que as conversas que fazia com um sacerdote do Opus contribuíram no abalo de sua saúde psíquica.

Me recordo que o João Malheiros, às vezes, pedia para eu "preparar algum tema para as tertúlias". Ou seja, até aquelas reuniões de bate-papo informal não eram lá muito naturais e espontâneas.

Fiz um convívio, pouco tempo depois que "apitei", para acompanhar alguns rapazes que eram potenciais novos membros do Opus. Fiquei triste durante este convívio. Sofri a frieza dos outros "de casa" comigo: como sabiam que eu já tinha "apitado", era como se eu não existisse. Ou seja, depois que "mordi a isca" e me tornei um membro do Opus, eles não precisavam mais parecer simpáticos comigo.

Neste convívio, no horário do esporte ou de algum tempo livre, convidei um rapaz para jogar xadrez. E fomos jogar, num local afastado da casa. Recebi uma correção fraterna: me disseram que o jogo de xadrez estava proibido. Será que o jogo de xadrez é proibido no Opus, porque pode estimular o desenvolvimento do raciocínio?

Tinha uma época do ano em que os numerários do Centro tinham que fazer a venda de assinaturas do Círculo de Leitura. Trata-se de uma assinatura anual de publicações em forma de livreto, da Editora Quadrante. Os numerários não recebiam nenhuma quantia a título de comissão pelas vendas das assinaturas. Ou seja, é um trabalho gratuito feito pelos numerários, que gera grandes somas para os cofres do Opus. Vendi várias dessas assinaturas.

Residente

Fiz 18 anos. Fui morar no Centro. Fiquei num quarto com mais dois numerários.

Recebi uma correção fraterna, por "tomar banho muito rápido". De fato, acho que eu voava naquele banho, porque, mesmo no inverno, diziam para eu tomar banho frio.

Todos os dias, pela manhã, fazíamos oração mental e assistíamos à missa no oratório do Centro. De segunda à sexta, a missa costumava acabar por volta das 7:00 h. Minhas aulas começavam, na faculdade, às 7:30 h., no campus da USP. Assim, a única forma que encontrei de chegar no horário de início das aulas foi ir de bicicleta. Aos numerários, em geral, não era permitido ter um carro próprio, e esse era o meu caso. Ir de ônibus significava chegar atrasado, porque incluía necessariamente o tempo de deslocamento até o ponto, o tempo de espera do ônibus e o tempo das intermináveis voltas que o ônibus fazia dentro do campus da USP, até chegar na minha faculdade.

Depois de algum tempo, o João Malheiros proibiu que eu fosse de bicicleta para a faculdade. Mas não porque ele achasse perigoso andar de bicicleta no meio do trânsito de São Paulo. Longe disso... Ele disse que eu devia ir de ônibus para fazer apostolado com os demais passageiros! E disse: "não tem importância chegar atrasado..." Eu não entendia... Chegar atrasado na faculdade era coisa que, para mim, implicava em não viver a virtude humana da pontualidade no trabalho profissional. Trabalho profissional que, no meu caso, era o estudo, lá na faculdade. E como é que ficava o tal do "santificar o trabalho profissional", que é um dos pontos centrais da mensagem do Opus?

Passei a viver o costume do "dia de guarda", que era uma obrigação semanal dos numerários. Na véspera do "dia de guarda", o numerário tinha que dormir no chão. No primeiro dia em que tentei dormir no chão, não dormi quase nada, por causa do desconforto e do frio. Eu achava contraproducente esse negócio de dormir no chão, porque, tendo dormido mal, eu ficava morrendo de sono no dia seguinte, o que significava um dia pouco produtivo, ou seja, atrapalhava o tal do "santificar o trabalho profissional".

Eu quis fazer um curso de língua estrangeira. O João Malheiros não permitiu. Mas eu não entendia, por exemplo, por que o João podia, no meio de uma tarde, ligar a TV para "dar uma olhada" no jogo de futebol... Ver um jogo de futebol, podia. Já estudar uma língua estrangeira, não podia... E falavam que o Opus destina-se, preferencialmente, aos intelectuais... (Nada contra o futebol, por favor).

Um dia, apareceu no Centro um numerário de outro centro do Opus, com uma Kombi. Ele me pegou, e mais uns três numerários, e levou-nos para arrancar ervas daninhas da grama de Aroeira. Aroeira é uma casa de retiros do Opus. Ficamos lá o dia todo, arrancando aquelas pragas da grama. Obviamente, trabalho gratuito, como sempre. Com entusiasmo juvenil, comentei com o numerário da Kombi que devia ter um jeito de a gente poder dormir menos, para ter mais tempo para fazer as coisas, para o dia render mais... E este numerário, que era mais velho, respondeu: "mas se o único tempo que temos para nós [de casa] é quando dormimos..." Sem comentários...

"Crise"

O tempo foi passando, e eu comecei a perceber muitas coisas erradas no Centro.

Eu comecei a falar com o João Malheiros que eu estava com dúvidas sobre a minha "vocação". Eu dizia para ele: "a minha cabeça não está mais aqui." Outra frase: "se eu ficar aqui, vou acabar atrapalhando, porque não acredito mais nisso aqui". E outra: "como vou fazer proselitismo, se eu não acredito nisso?" Eu passei a não concordar com um monte de coisas. Passei a enxergar incongruências, hipocrisias. Simplesmente aquele papo das meditações, dos círculos, a "formação" como um todo, "não descia" mais para mim. Eram inúmeras as contradições que eu não conseguia mais digerir.

Por exemplo, por um lado, pediam para "ter iniciativas apostólicas", mas, ao mesmo tempo, tudo, simplesmente tudo, em matéria de apostolado, deveria ser feito de acordo com as detalhadas instruções do diretor. Então eu pensava comigo: para quê ter iniciativas, se o diretor acaba mandando que se faça outra coisa?

Percebi que não era possível ser natural, espontâneo, e que a falta de naturalidade e de espontaneidade roubava todo o entusiasmo ao se fazer alguma coisa. Percebi que, para se fazer alguma coisa com gosto, com amor, sobretudo nas coisas relativas a Deus, esse algo tinha que nascer do nosso íntimo, tinha que nascer de uma convicção pessoal. Tinha que nascer de uma área do nosso ser inatingível por quem quer que seja. Portanto, esse agir mecânico, de acordo com uma simples indicação do diretor, significava um agir despersonalizado, e isso pode até ter lugar em outras instituições humanas, mas não quando se trata de algo relativo a Deus.

Percebi que o pessoal ali era infeliz. Como cúmulo dessa infelicidade coloco o sacerdote. De fato, a insatisfação e o descontentamento ficavam estampados no seu semblante. Eu não entendia...

Percebi que muitos numerários desapareciam misteriosamente, do dia para a noite. O João dava uma desculpa esfarrapada, tipo "está doente"...

Às vezes, porém, o João admitia que algum numerário tinha abandonado o Opus. Nesse caso ele dizia que tal numerário "não perseverou", acrescentando que "as folhas secas caem por si só"...

Em resumo, eu estava enxergando contradições e infelicidade naquele ambiente.

O negócio da obediência ao diretor tinha ficado intragável. Eu não curtia ter que chegar atrasado na faculdade, não poder estudar a quantidade de horas que eu achava que devia estudar, ter que consultar qualquer coisa que saísse da minha rotina de "robot" com o diretor, etc.

A situação era especialmente delicada, pois havia o agravante de não podermos fazer qualquer comentário crítico a respeito de qualquer coisa da instituição, com os demais membros, e, mais ainda, é claro, com não-membros. Isso era proibidíssimo. Na "formação", eles eram muito enfáticos quando diziam que todo e qualquer comentário crítico a respeito do Opus deveria ser feito apenas e tão somente com o diretor, que, neste caso, tratava de tentar persuadir o membro a ter menos "espírito crítico".

Chegou uma época em que eu ficava pensando nessas coisas na cama, antes de dormir. Ficava pensando, e pensando, e pensando. Eu ficava pensando tanto, que cheguei a atravessar algumas noites inteiras sem dormir.

Nesse período de muita reflexão, eu passei a redigir um "documento", que posso intitular como "Motivos pelos quais eu deixei a Obra". Foram mais ou menos 3 folhas de papel tamanho A4, onde escrevi, enumerando, algumas coisas que eu tinha pensado. Por exemplo, escrevi:

"Vocação? A mim Deus nunca se manifestou de forma clara."

Pena que eu destruí esse "documento", muitos anos depois de ter deixado o Opus, num momento em que tive alguns problemas psicológicos e não sabia ainda qual era a sua causa - meu próprio envolvimento com o Opus.

Em relação à saúde física, me recordo que, numa tarde, eu estava me sentindo extremamente fraco, exausto, como conseqüência de uma forte gripe. Falei com o João Malheiros sobre isso, e ele não me autorizou a ir me deitar. Mesmo assim, eu fui me deitar, porque eu simplesmente não me agüentava mais em pé.

Certo dia, desmaiei no banheiro, depois de ter tomado banho. Eu já tinha acordado meio "bêbado" de cansaço físico e mental. Cambaleando, fui para o cubículo do banheiro onde fica a privada. Fechei a porta do cubículo. Minha visão "escureceu", e eu caí ali no chão daquele cubículo. Depois de alguns minutos eu me recuperei e levantei-me. Resolvi nem comentar isso com ninguém.

As conversas sobre "vocação" iam se sucedendo, com o João Malheiros. Numa certa altura, falei para o João que eu ia embora. E ele me pediu: "fica mais um tempo, pensa melhor..." E passava um certo tempo e eu, de novo: "Vou embora semana que vem..." E ele: "fica mais, espera passar o tempo..." E não sei bem quanto tempo fiquei nessa situação. Chuto algo em torno de 6 semanas.

E então veio um retiro para numerários. Eram 5 dias em silêncio, só ouvindo aquelas meditações e palestras. Meu amigo! Esse retiro serviu para eu confirmar que eu tinha que ir embora!

No retiro, chegou o momento de eu ter uma conversa com o sacerdote que pregava. Comentei, então, minhas dúvidas a respeito da minha "vocação", e a minha vontade de ir embora. Ele se mostrou surpreso, perplexo. Perguntou-me: "O seu diretor sabia dessa sua condição quando te mandou vir ao retiro?" Eu disse: "ele sabe, sim, até por isso ele pediu que eu viesse neste retiro..." O sacerdote se mostrou, então, espantado, e nem quis conversar muito mais. Acho que essa era a defesa daquele sacerdote: quando o assunto era mais sério, ele fugia... Um sacerdote que não sabe conversar sobre o tema "vocação divina"? Que coisa rara!

Depois do retiro, voltei para o Centro. Comentei com o diretor sobre o retiro e a minha decisão de ir embora, mesmo.

Nessa altura eu estava fazendo um encargo de manutenção material do Centro, muito a contra-gosto. Era o secretário do Centro que dizia para eu fazer estes encargos. Um dia antes de eu ir embora, ele veio me pedir para fazer um outro encargo, mas eu lhe retruquei: "só que desta vez não vai dar, porque amanhã eu vou embora." E ele saiu, em silêncio. Hoje percebo que essa multidão de encargos fazia parte da tática deles para me reter no Opus por mais tempo, impedindo que eu pensasse. Graças a Deus, encontrei tempo, lucidez e serenidade para estar muito seguro do passo que eu estava por dar.

Chegou o dia que eu tinha estabelecido para eu deixar o Centro. Saí em silêncio, sem falar com ninguém, levando meus poucos pertences.

Falando em pertences, alguns dias depois de ter deixado o Centro, resolvi me desfazer do cilício e das disciplinas. Peguei estes instrumentos de auto-flagelação e joguei-os num rio.

Eu nunca me arrependi de ter saído do Opus. É engraçado, mas, mesmo nos momentos de maior tristeza, eu nunca disse para mim mesmo: "é, eu não devia ter saído da Obra..." Eu cheguei a pensar que eu era um cara diferente, um sujeito bem "sui generis", mas nunca pensei algo como "o meu lugar é no Opus, como numerário". De fato, quando, em sonhos, aparecia uma situação em que eu figurava como numerário, eu acordava e pensava: "Ufa!... Ainda bem que é só um sonho!"

Conseqüências

Apesar de ter deixado de ser membro da instituição, psicologicamente, eu ainda tinha uma ligação enorme com o Opus. Simplesmente, depois de ter recebido toda aquela "formação", desde os meus 10 aos 18 anos, eu não sabia viver de outra maneira, a não ser baseando-me nos ensinamentos do Opus.

Os ensinamentos do Opus estavam demasiado arraigados no meu ser. Os ensinamentos do Opus haviam sido como que impressos nas tábuas da minha mente, só que impressos com aquelas ferramentas de entalhar, como aqueles escritos antigos que ficam em alto relevo, os cuneiformes, se não me engano. Os ensinamentos do Opus tinham sido entalhados nas tábuas da minha mente com bastante profundidade.

Como resultado do meu envolvimento com o Opus e da "formação" que lá recebi, tive problemas psicológicos, anos depois de ter deixado de ser membro da instituição.

Graças a Deus, graças à ajuda de uma excelente psicóloga e graças ao meu esforço pessoal, consegui vencer os problemas psicológicos.

Ao libertar-me da prisão mental que significa a "formação" recebida no Opus, eu tive a nítida sensação de ter nascido novamente. Tudo para mim era novidade! Deus, as pessoas, as coisas do mundo... Passei a enxergar tudo isso com os meus próprios olhos, sem qualquer filtro que rotulasse de alguma forma a realidade. Depois de ter feito uma "viagem" muito estranha e auto-destrutiva pelo "mundo a la Opus", eu estava "aterrissando" de volta ao planeta Terra. Pode parecer que estou exagerando, mas é sério: nesta fase, até tomar um simples cafezinho com bolachas era algo que me deixava exultante de alegria!


São Paulo, em 10 de dezembro de 2003.

Marcio Fernandes da Silva -: marciof@nvcnet.com.br

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